terça-feira, 12 de abril de 2016

Preocupe-se com a sua masculinidade

Talvez por algum tipo de orgulho, existe uma tendência entre os homens de pensar que a virilidade acontece quando se afirma que já a tem. Comente com algum homem sobre a crise da masculinidade e ele começará a falar como se estivesse livre disso, como se o resquício de masculinidade que ainda resta no mundo estivesse nele, enfatizando que foi educado na vara de marmelo, que gosta de jogar futebol ou que não é homossexual de modo algum.

Essa reação comum demonstra duas coisas:

  1. Muitos homens andam achando que crescimento em masculinidade ocorre por declaração. Que é algo externo que deve ser demonstrado à terceiros.
  2. Precisamos compreender melhor a crise da masculinidade e que já estamos sendo afetados por ela.

Em algumas postagens iniciais eu tentei definir um parâmetro de masculinidade que estava se perdendo e que iria ser o objeto da busca do Oficina do Homem. Alguns pontos da conhecida "crise da masculinidade" já estavam descritos ali. Mas precisamos falar um pouco mais sobre a importância de identificar e reagir às consequências disso. 

Acontece que quando nós acreditamos que não estamos sendo afetados só por que nos afirmamos muito machos, estamos sendo puramente ingênuos. A destruição de valores masculinos das últimas décadas, no Brasil, deixou poucos tijolos no lugar. A falta de referências viris, o desprezo pelo homem, a quebra das diferenças de gênero e as distorções sobre hombridade deixaram marcas tão profundas que já nem podemos perceber sem um nível maior de atenção e consciência.

Nós estamos vivendo num lixão imaginando que o problema seja a falta de banho de algumas pessoas. 

Se você tomou consciência de que já está sendo atingido, é hora de saber de onde vem os tiros. Só aí você poderá ter qualquer reação efetiva para o próprio crescimento.

1. O desprezo pelo homem

Sem vitimismo. Reconheçamos apenas que após décadas de discursos feministas que classificam homens como opressores, estupradores em potencial e agressores, a dignidade da natureza masculina sofreu. A impressão geral, hoje, é que as características masculinas são negativas, perigosas e até mesmo maldosas. 

Um exemplo de como esse pensamento afeta a vida dos homens são as leis que facilmente afastam homens de suas famílias, como se a presença de um pai numa família fosse uma espécie de risco.

De maneira geral, percebe-se também uma feminilização da sociedade. Isso não significa "imposição feminina", "empoderamento", nem mesmo "valorização feminina". É mais uma força negativa. Condenamos os objetos de interesse e práticas puramente masculinos, forçando homens a viverem como mulheres.

Caçar? Proibido. Comer bem? Faz mal. Cortejar uma pretendente? Assédio. Atirar? Crime. Fumar? Nem cigarrinho de palha. Buscar independência e autonomia? Depende do que o governo acha disso. Vestir-se como um homem? Careta. Exercitar-se? Apenas por estética, se não, violento. Administrar uma família? Machismo.


2. "Gêneros são construções sociais"

Parece algum tipo de brincadeira ou algo absurdo demais para ser uma brincadeira, mas a idéia de que homens e mulheres só são homens ou mulheres na sua parte biológica sexual vem ganhando muito volume nas últimas décadas. Mais e mais gente acredita que a diferença entre os sexos simplesmente não existe, a não ser como uma disposição sexual.

Países inteiros vêm adotando políticas baseadas nessa nova forma de pensar, inclusive o Brasil. Nada resta ao cidadão comum senão perguntar-se se há algo de errado no mundo ou nele mesmo.

A verdade é que isso nunca teve fundamento científico e pode ser desmentido por qualquer percepção realista. Você pode conhecer um pouco mais sobre essa discussão pelo documentário norueguês O paradoxo da igualdade, no qual o comediante com formação em ciências sociais, Harald Eia, investiga o porquê de seus conterrâneos continuarem escolhendo profissões de maneira tradicional apesar de tantas ações governamentais que deram à Noruega o título de país com maior igualdade de gênero.

Mesmo errada, essa concepção traz estragos terríveis:


3. A falta de compreensão da masculinidade

Esse problema é especial no caso brasileiro. Nós apagamos nossas referências e nossos valores de forma tão profunda, que não sabemos sequer para que lado fica essa tal "virilidade". Ser mais masculino, no senso comum brasileiro, tem mais a ver com o verdadeiro oposto da masculinidade.

Poucas pessoas sabem admitir facilmente a idéia de um "homem mais masculino" como alguém compromissado, responsável, disposto ao sacrifício e a defesa. 

Poderíamos classificar algumas das visões do que é masculinidade para os brasileiros em geral:
  • O Crianção. Ser mais homem é gostar de coisas que garotos de 12 anos gostariam. "Homem gosta de video game", "Quadrinho é coisa de homem", "Homem passa o dia jogando e comendo sanduíche" etc.
  • O Gordo. Fazer coisas de homem, para alguns, não é algo muito próximo do que é mostrado no filme Gran Torino, de Clint Eastwood. Seria, na verdade, algo mais próximo do Homer Simpson. "Homem bebe cerveja e assiste futebol". 
  • O Cretino. O espantalho feminista é assumido por alguns homens. São eles que criam discursos vitimistas, odeiam mulheres e imaginam que são mais másculos quanto mais maliciosos, mentirosos, vingativos e agressivos são. "Homem de verdade pega mulher e bate punheta", "Vou te levar para um puteiro para você ser mais homem", "Mulher nenhuma presta".
  • O Efeminado Ideal. Parece até inverossímil, mas muitos dos ícones de masculinidade são reconhecidos assim por que agradam as mulheres, mesmo que sejam efeminados em muitos sentidos. Cabelos e pele bem cuidados, corpo depilado, traços infantis e movimentos delicados. Esses são os mesmos que "servem" às mulheres, não por que são cavalheiros, mas como uma espécie de "amiga útil". Eles pintam as unhas da namorada, fazem brincadeiras fofinhas, etc. "Homem de verdade ajuda a escolher a roupa da namorada".
  • O Musculoso. Com a moda da academia, surgiu a noção de que músculos e virilidade são equivalentes, ainda que isso seja conquistado com hormônios femininos. "Homem de verdade não é frango".
  • O Barbudinho. Na onda dos lumbersexuais, são homens que se vestem como um protótipo de lenhador que não deu certo. A barba voltou a ser um sinal de masculinidade. Basta que você seja barbudo, beba umas brejas e use couro, você pode até beijar outros homens de forma máscula. "Homem de verdade não faz a barba".

Todas essas visões de masculinidade tem algo em comum: elas guardam algo de verdadeiro sobre a masculinidade, mas deturpam isso até o seu oposto. Por exemplo: o macho "musculoso" parte do princípio verdadeiro de que homens tem que cuidar de seu corpo e de suas capacidades, mas esvazia essa atitude, chegando à idéia de aumentar os músculos por futilidades, como para agradar outros homens.

É até previsível que tomemos as coisas assim. Quando se perde o sentido verdadeiro de algo, os detalhes são enfatizados e preenchidos de novos sentidos diferentes.


4. Falta testosterona

É normal que o nível de testosterona caia com a idade de um homem. Mas estudos mostram que o nível de testosterona  em homens vêm reduzindo de maneira generalizada há décadas, chegando hoje a números preocupantes. 

Entre as muitas causas, considera-se o uso de aparelhos celulares (cuidado com eles) e a alimentação. Numa época em que comer carne é quase um crime, não poderia ser muito diferente.

Além disso, a testosterona é muitas vezes relacionada ao comportamento antissocial e ao machismo, o que vêm prejudicando a conscientização dos homens sobre essa queda. 

Ignora-se que o hormônio é essencial para uma boa qualidade de vida e saúde masculina. Considere, por exemplo, que a dificuldade de criar músculos e pelos, depressão, falta de concentração e impotência sexual estão entre algumas consequências da deficiência de testosterona.


5. Consequências

As consequências disso tudo, de maneira geral, é uma geração de homens perdidos em relação a si mesmos, seus papéis e até seus próprios corpos. Não é à toa que o número de suicídios entre homens se tornou uma epidemia mundial. No Brasil, um dos países de maior taxa de suicídios do mundo, o número de casos entre homens superam os entre mulheres. 


6. Conclusão 


São muitos pontos que convergem contra a masculinidade, o que nos trouxe a uma situação insuportável. Preocupar-se com isso e fazer algo para mudar é um benefício para si mesmo e para a sociedade.

Para começar, aceite que essa é a nossa situação. Reconheça os pontos onde está prejudicado. Isso não diminui sua honra ou dignidade, pelo contrário. Só assim você poderá adquirir os meios para se tornar um homem como já quase não se pode ser: um homem de verdade. Este, por acaso, é o propósito desse blog. Conte conosco!




2 comentários:

  1. Muito bom p texto, nos faz acordar de um problema sério. Acredito também que o que agrava essa situação é a disponibilidade de pornografia que gera masturbação e faz o homem não ter força de vontade para cumprir seus objetivos e não estou falando apenas de objetivos sexuais. O acesso à pornografia e a masturbação é o que drena o resto de masculinidade que ainda temos.

    ResponderExcluir
  2. Excelente texto, obrigado por compartilhar!!!

    ResponderExcluir

Seu comentário será bem vindo!